Silent Hill HD Collection
A Konami nos ensina como clássicos não devem ser tratados

Você tem ouvido falar muito sobre Silent Hill ultimamente. Seja você fã ou não. Nós aqui da GameTV resolvemos homenagear este que a Konami intitulou “Mês da Loucura” com um especial sobre a série. Tudo isso para nos prepararmos para todos os lançamentos relacionados à tão hospitaleira cidade. Já nos deparamos (e nos surpreendemos) com Silent Hill Downpour, nos decepcionamos (mesmo?) com o adiamento de Book of Memories e enfim chegou a hora de testar dois dos maiores clássicos do gênero, Silent Hill 2 e 3, agora vindos nesses pacotes especiais que resolveram chamar de HD Collection.
Em teoria, a tarefa era bastante simples: colocar num mesmo disco dois dos jogos mais queridos pelos fãs da série e torná-los “jogáveis” nas atuais plataformas. Era o mínimo que esperávamos de uma empresa de respeito, como um dia já foi a Konami. Quem sabe um papel de parede para seu console favorito, uma fotinho para seu avatar, ou até mesmo (em um mundo ideal) uma ou outra entrevista com os desenvolvedores dos jogos. É assim que se faz um relançamento de verdade. Com classe, estilo e mostrando respeito aos fãs, exatamente como no impecável Ico & Shadow of the Colossus HD Collection.
Pois é com muito desgosto e uma pitada de ódio que digo que não temos absolutamente nada disso aqui. SH HD Collection é uma tentativa amadora e ridícula de relançamento. Não tenho ideia de quem seja esse tal de Hijinx Studio, mas já o odeio com fervor, e fico me perguntando porque diabos foi dado a eles essa dura tarefa. Temos aqui dois ports muito mal acabados, com uma série de problemas que nunca existiram nas versões originais e mais uma infinidade de novas atrocidades impensáveis. Há tempos não ficava tão furioso jogando um jogo de videogame (e perceba que venho perdendo horas com RE Operation Raccoon City).
Maria e Heather oferecem um ombro amigo para você chorar
Não vou perder tempo falando sobre o quão incríveis e únicos SH 2 e 3 são. Simplesmente não vou. Caso queira ler sobre (e até mesmo gerar discussão e algazarra), experimente os Dossiês que vêm tornando suas quintas mais divertidas e mal-assombradas.
Desde a foto de fundo (no caso da versão de PS3) até a tela de press start, já é possível ir sacando a safadeza e descaso depositados aqui. Para começo de conversa, não incluir Silent Hill 1 e Silent Hill 4 The Room no pacote já fazem desta coleção uma piada. Ou então teremos um dia a Parte II (talvez seja essa a intenção desses mercenários malditos). Mas, honestamente, espero que SH HD venda tão pouco e seja tão repudiado que nem sequer possam cogitar desgraçar mais jogos da série.
Desculpem se estou parecendo meio revoltado. Mas o faço com propriedade de causa. Tenho em Silent Hill 2 um dos meus jogos favoritos de toda existência e Silent Hill 3 não vem muito atrás. Vou tentar explicar ponto a ponto tudo que pude notar enquanto terminava SH 2 e SH 3 pela enésima vez em minha vida. E pela primeira vez com os dentes rangendo (e não de pavor ou tensão).

Houve tumulto acerca do anúncio desta coleção por conta de direitos autorais por parte dos dubladores. Para facilitar as coisas, uma redublagem seria feita. As vozes novas viriam sob direção da queridinha de Akira Yamaoka, Mary Elizabeth McGlynn, dona da voz em Room of Angel, uma de suas composições mais famosas. Nem mesmo isso evitou uma revolta fervorosa entre os fãs, pelo apreço que têm pelas vozes originais. Logo, eles se fizeram ouvir através das redes sociais da vida e a Konami fez um esforço, assinou novos contratos com os dubladores e todo mundo ficou feliz.
Em partes. Sim, há a opção de jogarmos com as vozes antigas em SH2 mas não há nem sinal disso em SH3. Serviço feito pela metade está em cada centímetro quadrado desta coleção. Mas seria injusto em não dar os devidos créditos aos novos dubladores. No caso de SH2, alguns até me soaram melhores, como foi o caso de Eddie. James está bem interpretado em suas cenas mais dramáticas e, por outro lado, Maria parece uma senhora de idade. Esqueça a sensualidade de antes. No caso de SH3, só desgraça: Douglas não consegue encaixar uma intensidade em seu tom e Vincent perdeu aquele tom sarcástico e doentio da dublagem original. E nem vou falar da Claudia. Deprimente. Mais deprimente ainda é reparar o sincronismo labial, que muitas vezes beira o risível. Frases inteiras postas fora de lugar e segundos a fio de personagens movendo os lábios e gesticulando por nada.
Mas estaríamos bem se fossem só esses os problemas. Começar com SH2 já nos dá um belo susto, pois a qualidade das CGs são péssimas. Não no nível de mediocridade que vimos em RECVX HD, mas é algo que gera repulsa, ainda mais se pensarmos como foram impressionantes acerca de seu lançamento, há onze anos. SH3, felizmente, não faz uso desse recurso gráfico, então o baque é um pouco menor.
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Tentar cruzar as ruas de Silent Hill sem se frustrar é tarefa das mais impossíveis. James corre de forma tão lenta que as vezes dá a sensação de estarmos controlando um boneco embaixo d’agua. Quando dois ou mais inimigos povoam a tela, é de chamar pela mãe. Sério, ver a animação de James chutando um monstro caído seria muito engraçado não fosse extremamente trágico. Lembram-se do Homem Nuclear do Chapolin? Pois bem.
Acha que estou exagerando? Faça o teste você mesmo: experimente enfrentar o Closer que está bem em frente a panificadora no shopping center Central Square, logo no comecinho de SH3. Acho que alcançamos um nível de lentidão ainda não visto nas duas últimas décadas.
O problema maior é que há uma oscilação absurda entre momentos fluentes e outros arruinados. SH 2 e 3 nunca se gabaram por sua taxa de quadros por segundos, mas raramente nos frustrávamos pela lentidão que a cena alcançava. Isso nunca aconteceu e quase sempre tínhamos uma estabilidade. Por conta dessas partes rodadas a 60 quadros, a disparidade torna-se ainda mais evidente e frustrante. As vezes chega a ser questão de segundos entre algo decente de ser jogado e algo que beira o impraticável.

E tem como piorar: imagine você tentando correr de vários inimigos e se deparando com uma névoa que vai fazer você largar o controle. Sim, a névoa. Elemento vivo da série, que até mesmo em sua primeira versão no PSX em 1999 surpreendeu. Aqui você verá blocos retangulares vindo em sua direção. Vou além: a cena do barco, perto do final de SH2, uma das mais melancólicas que já vi em um jogo, é completamente destruída por essa mesma névoa que resolve desaparecer e revelar um lago Toluka tão horroroso que dá nojo.
Ainda falando da parte gráfica: os ruídos na imagem, que ajudam a criar um clima de estranheza e deformidade nos cenários, se foram completamente. Há em SH3 a opção de ligar e desligar o noise do jogo (exatamente este efeito que simula uma película velha de cinema, dessas de 8 milímetros), mas alterá-la não muda nada no jogo. Nada.
O departamento sonoro não foi esquecido, disso você pode ter certeza. Temos aqui bugs no áudio tão absurdos que as vezes não dá para acreditar. O nível é tão baixo, que a música chega a desaparecer em algumas cutscenes enquanto que, em um outro momento, as vozes ficam tão baixas que você terá que aumentar o volume a níveis sem precedentes. E quando o barulho da cápsula da bala caída se repete por inúmeras vezes, formando um ruído irritante? E quando alteram, sem nenhum tipo de propósito aparente, faixas musicais consagradas, com remixagens infundados e que só estragam tudo?

Não foi a toa que Masahiro Ito, diretor de arte de vários dos Silent Hill clássicos, declarou seu descontentamento com essas novas versões. Por que tornaram as imagens mais escuras? Por que as ruas e cenários internos, de uma forma geral, estão mais limpos? Esses jogos não mereciam um tratamento tão grotesco. Muitíssimo pelo contrário, mereciam edições luxuosas, trazendo material perdido para colecionadores e uma qualidade técnica impecável. SH 2 e 3 foram surpreendentes em suas respectivas épocas, e não só pelos quesitos gráficos.
Há até mesmo alterações mais sutis e que não fazem o menor sentido. Em SH2, algumas calçadas e ruas estão mais limpas na versão em HD. Alguns itens, como o kit médico, foram redesenhados. O mais absurdo é que algumas quilometragens em placas de avenidas foram alteradas. Em SH3, não é mais possível cair de beiradas rumo a morte certa, enquanto que nos dois jogos, não há mais o “encontrão” em paredes, caso o personagem vá correndo em sua direção. E tenho certeza que encontrarei mais enquanto estiver jogando. Por que isso? Não faz o menor sentido.
Pior do que essas mudanças bizarras é quando nos deparamos com verdadeiras falhas de programação na pura concepção da palavra. Experimente voltar ao inicio da igreja, no parte final de SH3. Você se reparará que as pinturas sacras belíssimas do jogo original foram substituídas por quadros de pixels deformados, com tonalidade de cores de quatros gerações atrás. Parece piada.
Mas justiça seja feita: todo conteúdo presente na versão Restless Dreams de SH2 está presente. Todos os seis finais, o cenário Born From a Wish (onde jogamos com a Maria) e o nível extra de dificuldade para puzzles.
Finalizo este texto / vômito / sessão de descarrego com uma súplica: Caso você se considere fã de Silent Hill, especialmente dos dois jogos desta coleção, não compre SH HD Collection. Simplesmente não faça isso. E mais, espalhe para os seus amigos o quão péssimo esses ports ficaram. Caso você nunca tenha jogado essas duas pérolas do entretenimento de horror, não o faça por aqui. Arrume cópias de PS2, PC ou qualquer outro meio, mas não dê suporte a esta porcaria. James, Heather e cia mereciam mais respeito. Muito, muito mais respeito.
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